quinta-feira, 7 de julho de 2011

O louco



Tal qual uma ponte suspensa no meio do nada, o sujeito perambulava pelo acostamento, vindo de lugar algum e em direção à lugar nenhum. Nas costas, a trouxa mal-feita de um passado refeito e desfeito dezenas de vezes. Em cada porto, uma história, uma identidade, uma família. Lembranças deixadas para trás, como uma forma de compensar a falta de um adeus, um até-logo-quem-sabe-um-dia. Pouco importa, a aflição é de quem fica. Aquele que parte, ainda que sem rumo, leva consigo o movimento das pernas: pendular. E uma ideia torta de que não se pode parar de andar, senão o mundo acaba.

Por não saber o que fazer, ele pegou a estrada mais uma vez. Não demorou muito, um cão amarelo passou a segui-lo e acabou sendo adotado. Em pouco tempo, a barba cresceria novamente até o peito, os cabelos desceriam até o ombro e a pele se tornaria ferruginosa. O homem voltaria a ser um bicho ao olhos de outros seres da sua espécie, mas um ídolo para o cachorro. 

Comida, Deus dá. Mesmo a quem não acredita n'Ele. Depois de tantos séculos, a caridade ainda não havia saído de moda. E pouco importava a religião. Com base na teoria de que o Senhor, caso existisse, deveria ser poliglota, certamente irmãzinhas e irmãozinhos haveriam de estender um pedaço de pão ou um naco de carne vez por outra. De que mais o corpo precisa?

Banho. 

Isso sim, ficaria à mercê das vontades divinas e dos registros celestiais. Por sorte, era verão e as tardes sempre terminavam com uma pesada chuva. Se quisesse, poderia até tomar banho em uma jacuzzi improvisada na banheira antiga, de louça, de uma borracharia.

Ele quis.

E, por isso, passou a tarde sondando o dono da borracharia e seu ajudante, que atendiam um motorista de caminhão. Os homens perceberam a observação insistente da figura maltrapilha, acompanhada pelo cachorro preso a um barbante. Então, o borracheiro permitiu que o ajudante levasse uma refeição, que foi aceita e devorada sem uma única palavra.

Mas depois do prato de caridade, homem e cão continuaram plantados ali. O líder da matilha cutucou os dentes, brevemente, provendo uma parca higiene bucal, e voltou para a análise meditativa da borracharia, seu dono, o ajudante e a banheira.

O borracheiro e o ajudante se perguntavam se não era suficiente a comida e o que mais aquele homem queria. Resolveram deixar prá lá. 

A tarde caía e o homem permanecia do mesmo jeito, de pernas cruzadas debaixo do eucalipto, à beira da estrada, com o cão dormindo ao lado. O borracheiro começou a perder a paciência e cogitou enxotá-los dali. Mas o ajudante se adiantou e foi lá, ter uma palavra com o viajante.

Perguntou o nome e ouviu: Antônio. O ajudante acreditou e, à medida que fazia perguntas, não imaginava que em vez de respostas o que obtinha eram informações criadas na hora, um avatar, o desenho de mais um dentre tantos personagens que aquela criatura assumia ao longo de sua indecifrável existência.

Pro ajudante, Antônio e sua história bastavam. "Um pobre coitado, alcoólatra, largado pela mulher, odiado pelas três filhas. De Itamonte. Ferrador de cavalos." Pro borracheiro desconfiado, o relatório não fez muita diferença. E a pulga continuou atrás da orelha. 

O cão despertou de súbito e se coçou todo. Depois bocejou, rodeou o próprio rabo umas três vezes e deitou-se novamente. 

Deu a hora de ir embora. O borracheiro fechou o estabelecimento com um grande cadeado, sem tirar os olhos de Antônio. Em cima de suas cabeças, o céu ameaçava desabar. O rapazinho teve dó e convenceu o chefe a deixar o pedaço de uma lona com o andarilho. "Vai ser mais útil prá ele do que prá gente". 

O borracheiro fez a concessão e eles deixaram a lona aos pés do homem antes de entrar no carro, dar a partida e encerrar o expediente.

Antônio, Geraldo, José, Aquiles, Amadeu, Donizeti, Hélcio ou sabe-se lá quem deixou a lona de lado e manteve os olhos fixos na banheira encardida que jazia do lado de fora da borracharia. Até que ouviu um "tec". Olhou pro lado. Outro "tec". Sobre a lona, estatelavam as primeiras gotas do dia. "Tec", "tec". 

Ele tirou a roupa. 

Protegido debaixo da árvore, o cão observava o homem entrar na banheira como veio ao mundo: sabiamente louco.



12 comentários:

Breno Nogueira disse...

Querida Pilar: agora sei prá onde ir na hora que a vida me causar aquelas chateações, infelizmente, incontroláveis. Viva Pimba lasqueira!!!!
Beijos, Breno.

Jomar disse...

Adorei, Pilar!
Seu conto é muito legal.
Parabéns!

Anônimo disse...

Oi, Pi!
legal o seu blog. Sucesso!
Vou acompanha-lo.
ailton

dalilacoura disse...

Adorei, Pi. E esta foto de onde veio?

bia fazito disse...

Adorei a história !!!! Serei sua fiel escudeira por essas bandas.

bia fazito disse...

adorei .....

bia disse...

Parabéns Pilar, a sua história é muito boa e conjuga bem com a foto postada. Bótimo !!!!

bia fazito disse...

Este texto é uma bela poesia.... Adorei !!!

bia fazito disse...

Lindo texto !!!!

Laly Cataguases disse...

Ei, Pilar. Enfim, de volta. Que bom! Adorei o texto, mas nem precisava dizer, porque vc sabe que sou seu fã nº 1. Quem dera se todos fôssemos "loucos" assim, quem sabe o mundo não estaria melhor, com outros valores, os verdadeiros. Bjão

Anônimo disse...

Ua... que surpresa mais boa. Desde que nao lia mais nada seu no digestivo cultural estava busncando por todos os lados. Espero poder seguir lendo suas historias. =) Um abraço Karen

Sibelius disse...

Pilar, gostei da estoria, escreve mais outros contos, Pois bem, te escrevo porque ha tempos queria encontrar um conto chamado Palavras de amor, espetacular, mas havia perdido, nao lembrava mais tambem quem era o autor. Ai entrei no google e enfim fui parar em voce, que eu nao conhecia mas achei muito inteligente, legal. E voce comentou, isso em 2007.., sobte Palavras de amor, de,..Nelson Coelho...Voce tem este conto? Sibelius, Batatais-sp - sibeliusoliverio@hotmail.com