Por não saber o que fazer, ele pegou a estrada mais uma vez. Não demorou muito, um cão amarelo passou a segui-lo e acabou sendo adotado. Em pouco tempo, a barba cresceria novamente até o peito, os cabelos desceriam até o ombro e a pele se tornaria ferruginosa. O homem voltaria a ser um bicho ao olhos de outros seres da sua espécie, mas um ídolo para o cachorro.
Comida, Deus dá. Mesmo a quem não acredita n'Ele. Depois de tantos séculos, a caridade ainda não havia saído de moda. E pouco importava a religião. Com base na teoria de que o Senhor, caso existisse, deveria ser poliglota, certamente irmãzinhas e irmãozinhos haveriam de estender um pedaço de pão ou um naco de carne vez por outra. De que mais o corpo precisa?
Banho.
Isso sim, ficaria à mercê das vontades divinas e dos registros celestiais. Por sorte, era verão e as tardes sempre terminavam com uma pesada chuva. Se quisesse, poderia até tomar banho em uma jacuzzi improvisada na banheira antiga, de louça, de uma borracharia.
Ele quis.
E, por isso, passou a tarde sondando o dono da borracharia e seu ajudante, que atendiam um motorista de caminhão. Os homens perceberam a observação insistente da figura maltrapilha, acompanhada pelo cachorro preso a um barbante. Então, o borracheiro permitiu que o ajudante levasse uma refeição, que foi aceita e devorada sem uma única palavra.
Mas depois do prato de caridade, homem e cão continuaram plantados ali. O líder da matilha cutucou os dentes, brevemente, provendo uma parca higiene bucal, e voltou para a análise meditativa da borracharia, seu dono, o ajudante e a banheira.
O borracheiro e o ajudante se perguntavam se não era suficiente a comida e o que mais aquele homem queria. Resolveram deixar prá lá.
A tarde caía e o homem permanecia do mesmo jeito, de pernas cruzadas debaixo do eucalipto, à beira da estrada, com o cão dormindo ao lado. O borracheiro começou a perder a paciência e cogitou enxotá-los dali. Mas o ajudante se adiantou e foi lá, ter uma palavra com o viajante.
Perguntou o nome e ouviu: Antônio. O ajudante acreditou e, à medida que fazia perguntas, não imaginava que em vez de respostas o que obtinha eram informações criadas na hora, um avatar, o desenho de mais um dentre tantos personagens que aquela criatura assumia ao longo de sua indecifrável existência.
Pro ajudante, Antônio e sua história bastavam. "Um pobre coitado, alcoólatra, largado pela mulher, odiado pelas três filhas. De Itamonte. Ferrador de cavalos." Pro borracheiro desconfiado, o relatório não fez muita diferença. E a pulga continuou atrás da orelha.
O cão despertou de súbito e se coçou todo. Depois bocejou, rodeou o próprio rabo umas três vezes e deitou-se novamente.
Deu a hora de ir embora. O borracheiro fechou o estabelecimento com um grande cadeado, sem tirar os olhos de Antônio. Em cima de suas cabeças, o céu ameaçava desabar. O rapazinho teve dó e convenceu o chefe a deixar o pedaço de uma lona com o andarilho. "Vai ser mais útil prá ele do que prá gente".
O borracheiro fez a concessão e eles deixaram a lona aos pés do homem antes de entrar no carro, dar a partida e encerrar o expediente.
Antônio, Geraldo, José, Aquiles, Amadeu, Donizeti, Hélcio ou sabe-se lá quem deixou a lona de lado e manteve os olhos fixos na banheira encardida que jazia do lado de fora da borracharia. Até que ouviu um "tec". Olhou pro lado. Outro "tec". Sobre a lona, estatelavam as primeiras gotas do dia. "Tec", "tec".
Ele tirou a roupa.
Protegido debaixo da árvore, o cão observava o homem entrar na banheira como veio ao mundo: sabiamente louco.
